Entre um fim de tarde laranja, rosa e com cores intensas e uma manhã de de céu azul, José Cipriano da Silva, o Cipriano, pintor, desenhista, josefense, manezinho de coração, nos deixou aos 81 anos. Ao ver imagens como as desse post, tu provavelmente vais reconhecer não só os lugares, mas os traços que parecem fotografia. Já deves ter visto muita coisa dele por aí

O Cipriano vai ser lembrado por muita gente pelas cerca de 500 obra catalogadas, pelo traço que, olhando à primeira vista, parecia uma fotografia de tão preciso. As fortalezas históricas, os casarios luso-brasileiros, as muitas igrejas e pontos tradicionais como o Mercado Público de Florianópolis e o Centrinho Histórico de São José foram retratados e viraram livros.


Em uma conversa que tivemos há alguns meses, ele me contou que tinha passado um sufoco em 2012 com uma bactéria que pegou no hospital após uma cirurgia. Por isso ele agradecia estar vivo e fazia questão de seguir pintando, e pra manter a forma, caminhando e correndo.


Virou artista depois de aposentado

Só em 1996 o Cipriano (Nascido em 1935) virou artista plástico. Antes ele trabalhou boa parte da vida com execução de obras - Ele arrombava em desenho arquitetônico - era o cara da cidade. O melhor exemplo: foi o Cipriano que detalhou o projeto do Lagoa Iate Clube, o LIC - a ideia básica foi do Mito / Monstro Oscar Niemeyer. Aprendeu a desenhar num curso de Carpintaria Naval na antiga Escola Técnica ETFSC, hoje IFSC.

Guri pequeno, ele escreveu histórias em quadrinhos com uns 13 anos - elas foram publicadas no Jornal O Estado. A família dele chegou a ter restaurante no Mercado Público e na parede - adivinha - tinha um baita de um quadro do estimado Cipriano. Ele dizia que a cidade tava crescendo muito e ele queria voltar ao passado e registrar o presente com as pinturas.



As nossas lembranças
A obra fica, será lembrada por muitos anos e isso é fato. Mas tem a lembrança emocional, de quem se lembra da fala mansinha, da alegria de encontrar os amigos. Eu conheci o Cipriano em 2002, quando ainda estudava Jornalismo e era estagiário no Jornal O Estado. Na época, o Cipriano estava lançando o livro Igrejas de Florianópolis. Fui até a casa dele para entrevistá-lo, tomamos café e ganhei um livro de presente. Uma das primeiras entrevistas, é claro que ninguém esquece!

Corremos a última São Silvelho
Nos encontramos raras vezes depois disso, quase sempre em exposições dele. As últimas foram em Santo Antônio de Lisboa, na Corrida de São Silvelho. Ele correu sozinho e venceu a categoria +80. Eu, guri novo, tive que correr com a Maricota nos ombros, num calor que beirava os 38oC. Rimos juntos da inusitada solução, pouco antes de começar a prova.

Relembramos aquela entrevista, que ele disse ter guardada, e ficamos de marcar uma nova visita ao ateliê dele. Como era dia 31 de dezembro de 2016, acertamos que não seria apenas promessa de Ano-novo. Ele tinha aberto, alguns dias atrás, uma exposição no ateliê dele, no Centro. Tentamos marcar duas vezes e não conseguimos encaixar os horários.

 

Conversa com ele
O Cipriano tinha uma casinha ali em Cacupé. Um dia ele me contou que Santo Antônio de Lisboa, ali do ladinho, e onde acontece a São Silvelho, era um dos lugares favoritos pra ele pintar, e que ele tinha mais facilidade. Me disse mais ou menos assim

“Rapaz, eu vou no lugar, olho, ando, procuro, fico namorando o espaço até achar um ângulo diferente. Aí eu desenho e vou depois para o ateliê pra fazer a obra”.

Ele também fazia pesquisas fotográficas, em jornais, talicôza, pra poder retratar na pintura uma cidade que não existe mais. Altos, né?

Um querido!
Um abraço na família. Deixa saudades e uma referência gigante pra gente, estimado Cipriano!